Que providência tomar?

Naty e eu conversamos ontem vários assuntos, adoro jantar na mesa, sem tv ou afins, faz bem para nós, nos mantém em sintonia. Vou compartilhar com vocês uma síntese/interpretação/viagem, com base em uma música do Lenine, dos temas tratados no jantar.

Acordei inspirado hoje(acho que é porque assisti Carrossel ontem huAUHahUuhahuaHUA), ou não.

Julguem vocês!

Abraços.

***

O não querer saber é mais cruel do que o não saber. Pois, existe uma consciência de saber o que não se deseja. Mas, na verdade, sabemos o que não queremos, apenas não pegamos, seguramos, apalpamos ou medimos. Chega estar tão perto que não conseguimos ver. Sabe a sensação de colocar a palma da mão bem próxima aos olhos e conseguir enxergar por ela? Neste momento vemos o que não queríamos ver, e assim é a vida.

A decisão tomada de ficar só, permanecer inteiro, sem divisão emocional, a segurança de ser completo… Começo a rir sozinho, apenas pela sensação de estar só, mas, sorrio de tristeza, não me vejo mais só, menos ainda completo, a cada dia me monto, com um quebra-cabeça de mil peças, as bordas são fáceis de identificar, porém, o interior, o recheio, ali dentro no miolo, quem me dera saber de algo.

A falta nos completa, o paradoxo é nosso ursinho de pelúcia, abraçamos a solidão, um travesseiro de visco elástico, apertamos e apertamos para fazê-lo sumir, ele aparenta estar menor, mas, quando olhamos novamente, está inteiro. A falta e a solidão são completas, o que é a solidão, se não a falta de alguém, a falta de conjunto, de um grito que seja, a falta de demandar.

Mas essa dor, não me entristece. O que me faz temer é a palma da mão que não vejo, está ali, mas não enxergo, não apalpo. Não seguro nem meço. Isso me faz falta.

Foi! Passou e não vi, cadê? Perco-me no não saber e me acho no aviso, no conselho, no saber do outro. E como ficará a minha geração? O saber do outro agora é meu e devo passá-lo adiante. Mas o filtro, para que o que vejo como impuro não se perpetue, não recomece no meu fim. E o que é impuro? Mais uma vez sorrio…

Foi! Bem quietinho, distraído e calado. O amor se foi? Mas a falta permanece, cruel não é? O que faço dessa vida? Vendo-a? Devolvo-a para a loja? Processo no tribunal de pequenas causas? Minha causa será realmente pequena? Risos aparecem em minha face, mas agora de ironia, se fosse fácil assim o mundo não pressentiria seu fim, aflito e só. Mais uma vez o bendito não saber ou não querer saber aparece, sorri e se vai. Tudo se vai, porém, algo sempre permanece. Resta ansiedade de um chegar, alguém chegará para mudar o mundo, o meu mundo, tirará meu chão, não para me ver cair, mas para me ensinar que não sou completo, sou parte, faço parte, monto partes.

O cheiro do amanhã se iniciará em breve, cheirinho de carro novo, livro novo ou velho, o cheiro do novo. O cheiro fica pelo ar, fica o medo de ficar e o vazio preenche o espaço restante. O amor voltou, continuou calado, me maltratando, completando-me, deixando a solidão sem medida.

Mais uma vez eu sorri!

 

 Livre interpretação da música “A medida da Paixão” de Lenine.

6 comentários em “Que providência tomar?

  1. Não sei o que dizer… sabe aquele negócio de que a linguagem é insuficiente e algo cai? Então, foi o que o texto me causou. É meio louco dizer isso porque ele é feito de palavras, mas não sei o que expressar depois dele, palavras que roubam palavras em vez de proliferá-las, mais ou menos por aí. Palavras que fazem frases se apagarem no peito, mas acendem algum outro sentimento, íntimo, escondido, solitário, temeroso, de um riso irônico.
    Somos peças, apenas peças… mas pedaços que precisam de outros, de contorno e preenchimento. Pensar-se solitário parece dar alívio ao peito, de preocupações, responsabilidades, desejos divididos, uma paz, mas uma paz triste, como o final de uma batalha.

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